Memórias da casa que você deixou

Petulante, insolente e tudo o que mais vier na minha mente, é isso que tu é, um passo à mais que eu nunca deveria ter tido a ousadia de dar. Eu falei para todos meus amigos de bar que me negava a escrever sobre paixões inacabadas novamente, mas aqui estou, isso porquê o cheiro do teu perfume invadiu meu apartamento mais uma vez, sem eu ao menos ter deixado espaços para ele se grudar aqui.

Como se não bastasse, minha casa inteira parece chamar o teu nome, não sei em que terreiro tu fez essa amaração, só sei que meus travesseiros me perguntam a noite inteira quando você vem nos visitar e eu não tenho coragem pra responder sem sentir um maldito aperto no peito.

O dia em que tu bater em minha porta de novo eu vou te deixar entrar, não porque te perdoo, e sim porque por ti eu não devo guardar nem o rancor. E antes que essas palavras que me consomem por agora, se esvaiam, eu quero deixar registrado que a partir de hoje, nem a casa, nem a moradora sentirão saudade das tuas lembranças.

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Efeito do orgulho e é feito dele também

Eu observei atentamente ele empurrar a porta de vidro da cafeteria, virar o rosto para os dois lados até encontrar meu olhar, sua boca tremeu e os olhos brilharam, se fora de amor ou de raiva, nunca saberei. Estávamos mais uma vez no mesmo lugar com as mesmas intenções: ver um ao outro sem ter que admitir em voz alta que era o que ansiávamos a todo momento.

Tínhamos brigado fazia mais de um mês e desde então íamos no horário que já nos era costumeiro à cafeteria que nos serviu de ambiente romântico por quase todas sextas-feiras do nosso namoro, pediámos o mesmo café de sempre, sentávamos juntos em mesas separadas e nos reconciliávamos sem trocar uma só palavra.

Ame sem joguinhos

Quem gosta mesmo de ti vê graça em tudo, desde o teu dedão do pé meio torto até aquela falha estranha no lugar em que teu cabelo não cresce igualmente ao resto. Quem gosta repara em tudo, nas tuas manias esquisitas e no jeito que você dorme quando está extremamente cansado.

O lado bom e também mau de se estar apaixonado é essa cegueira momentânea que nos dá, tudo no outro nos chama atenção e nada parece nos assustar, a verdade é estamos tão preocupados tentando identificar o que sentimos que nem reparamos quando as coisas simples deixam de passar despercebidas e tornam-se detalhes já conhecidos intimamente.

O amor não deixa dúvidas, sabemos intuitivamente quando iremos nos apaixonar, e da mesma forma temos plena consciência de em que situações as coisas tendem a dar errado, entretanto preferimos ignorar tudo e todos. Esperamos que milagrosamente algo caia dos céus (não falo apenas de meteoros) e mude totalmente o rumo de nossas paixões incontroláveis.

O sentimento nos deixa fora de órbita, a rotina toda muda, ficamos mais felizes, distraídos, loucos e desastrados, andamos pelas ruas suspirando e tentando adivinhar se o amado sente a mesma coisa que nós. Todo mundo já pode perceber que estamos apaixonados e mesmo assim tentamos de alguma forma negar, não pra tentar esquecer as malditas borboletas no estômago mas sim, para nos fazer de difícil, por que você sabe, quando o amor bate em nossa porta vêm acompanhado de um manual de regras toscas que você tem que seguir.

Somos previsíveis sim, não adianta negar, também não relute a ideia de que fazemos joguinhos, é normal, apesar de eu ainda os considerar extremamente infantis, diga-se de passagem. Não são realmente necessários acredito, porém se não existissem amaríamos excessivamente, sim caro leitor, a cura para os conflitos do mundo está verdadeiramente no amor sem regras, contudo a ideia de que o amor (e tantos outros sentimentos) deve ser enrustido, para demonstrar quem manda em quem na relação, está furtivamente enraizada em nossa cultura, e eu sinceramente não sei a origem de todo esse medo.

Sejamos livres para fazermos o que quisermos, AMAR principalmente, sem vergonha. As coisas só irão pra frente quando a liberdade de expressão de que tanto falamos hoje em dia sair livremente de dentro dos nossos corações e não apenas da boca para fora, em um ato de rebelião.

Clara Webler