Pai

Eu nunca te visitei nesses anos todos, eu tinha medo dos monstros das histórias que a minha mãe me contou desde a minha infância pra justificar o porquê que você foi embora, era mais fácil acreditar em bicho papão do que num pai que me abandonou. Você sempre foi o maior pesadelo da minha vida, eu sentia a tua falta nas festinhas da escola e nos churrascos de final de semana.

A gente não teve muitas memórias juntos, mas eu lembro de um dia que você foi passar um dias na casa da Marambaia e me levou até o mercadinho pra comprar picolé num carrinho de mão, foi tão pouco pai, que você nem deve se lembrar, mas pra mim significou o mundo, naqueles momentos em que você me cuidava e me abraççava, eu quase podia sentir que era a sua filha. Foi assim que eu me senti durante todos esses anos, como alguém deixado de lado, eu me sentia tao mal por esperar ansiosamente pelo sua vinda à cada verão, eu ficava tão feliz quando você vinha mesmo quando chegava de madrugada, eu te amava tanto, mesmo sabendo que talvez você nem sentisse o mesmo, mesmo sabendo que era a sua “obrigação” visitar a filha que deixou pra trás.

De uns tempos pra cá o senhor parou de vir todos os verões e com o passar dos anos eu também parei de esperar que viesse, cada ano eu ia deixando e  deixando de lado aquela esperança de que você ligasse pedindo pra mãe te buscar na rodoviária porque você tinha chego. Eu queria te procurar onde você morava, eu queria te visitar, mas quem tinha me deixado pra trás era você, eu não tinha a obrigação de ir pra longe do meu lar de encontro a um desconhecido implorar por migalhas, é isso o que você sempre foi, um desconhecido pra mim, um homem que morava a mais de 300 km de distância, que sequer queria que eu viesse ao mundo mas que mesmo assim ocupava uma parte do meu coração.

Faz tanto tempo que a gente se viu, pai, que eu nem sei o que te dizer quando a gente se encontrar. Eu tô com medo de não conseguir te falar nada quando te ver na cama do hospital.

Eu queria te odiar, mas eu ansiava tanto pelo seu amor que a única coisa que conseguia fazer era esperar pelas ligações nas datas comemorativas e chorar pela brevidade das conversas. A última vez que tu me ligou pai, era véspera de natal e, a ligação durou os exatos 1 minuto e 53 segundos necessários pro meu coração quebrar mais uma vez. Eu queria te contar e perguntar tanta coisa, mas você não teve tempo pra mim, nunca teve.

Hoje eu tô indo pela primeira vez pra tua cidade, porque minha irmã ligou dizendo que você tá a beira da morte e que quer me ver. Você sente falta de mim só agora, enquanto eu senti a tua vida inteira. Eu tô indo as às pressas pro hospital porque eu ainda sou aquela menininha espuleta que esperava o verão chegar pra ganhar um abraço que deveria ser dado todos os dias. Mais uma vez é verão e eu tô ansiosa pra ver você.

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